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M = C*(1+n)^t só funciona pra quem tem C

Miuna Hamasaki

vi circular no X um post da Suno Investimentos com o Tiago Guitián Reis dizendo que 97% dos brasileiros não sabem o que significa a fórmula de juros compostos, e concluindo: "por isso, somos um país pobre."

a fórmula é essa:

  • M = C * (1+n)^t

onde:

  • M = montante final (quanto você vai ter)
  • C = capital inicial (quanto você coloca hoje)
  • n = taxa de juros por período
  • t = tempo em períodos
Tweet de Tiago Guitián Reis: 97% dos brasileiros não sabem o que significa esta fórmula. Por isso, somos um país pobre.

a intenção por trás do post é clara, se mais brasileiros entendessem juros compostos, tomariam decisões financeiras melhores. não é uma ideia ruim, e a divulgação de educação financeira é um objetivo genuinamente legítimo.

mas tem um problema no argumento. e ele tá escondido dentro da própria fórmula.

Onde o argumento trava

a fórmula funciona muito bem. o problema é o "por isso" da frase.

dizer que o Brasil é pobre porque as pessoas não sabem juros compostos é inverter a causalidade. a relação que existe é mais ou menos a oposta mesmo, é difícil aprender e praticar finanças avançadas quando o mês não fecha.

pra fórmula fazer qualquer coisa, você precisa de um C positivo e relevante. sem capital inicial pra aplicar, a equação não decola.

você pode saber de cor toda a teoria de renda fixa, CDB, Tesouro Direto, ações, FIIs... mas se no fim do mês sobrou R$ 0 depois de aluguel, luz, alimentação e transporte, a fórmula não muda muito isso. (¬_¬)

Mas educação financeira não é inútil

não! longe disso.

saber não cair em pirâmide financeira, entender as armadilhas do crédito rotativo, não financiar geladeira em 48x sem critério, evitar empréstimo consignado desnecessário... isso faz diferença real e concreta pra qualquer faixa de renda.

então sim, divulgar juros compostos é útil. o problema não é a fórmula, nem a intenção de quem a divulga.

o problema é usar isso pra explicar a pobreza, como se fosse uma questão de ignorância matemática do povo. essa leitura ignora décadas de desigualdade estrutural e coloca o peso no lugar errado.