#opiniao #carreira #concurso #mercado-de-trabalho #desabafo

venci centenas de candidatos numa prova. não passo nem no McDonald's

Miuna Hamasaki
AVISO ANTES DE COMEÇAR

esse artigo é pessoal demais pra eu escrever em tom neutro. tem relatos da minha vida, situações que ainda doem, e uma pergunta que não sai da minha cabeça faz tempo. ninguém lê esse blog, e talvez seja exatamente por isso que consigo escrever com honestidade aqui. se você chegou até essa página de alguma forma, vlw por ler.

em menos de seis meses, passei em vários concursos públicos. em dois deles, fiquei em primeiro lugar.

ao mesmo tempo, o mercado privado me ignora completamente. não é exagero. é literal. estou numa situação financeira complicada, de saúde pior ainda, e não consigo nem vaga de atendente de lanchonete. o McDonald's não me contrata. (;ω;)

McDonald's

uma dessas coisas está errada. ou o método avaliativo dos concursos que me colocou em primeiro, ou o critério das empresas que me recusam, ou o mercado está usando uma régua que não mede o que deveria medir. as três alternativas me incomodam de formas diferentes. mas o fato é que não batem. não é possível ser ao mesmo tempo excelente o suficiente pra vencer centenas de candidatos numa prova e ter um perfil inadequado demais pra preencher uma vaga de entrada.

de onde eu vim

cresci sendo o tipo de criança que fazia coisas na internet que eram consideradas bizarras pra minha faixa etária. enquanto outros meus amigos jogavam pelo prazer de jogar, eu já estava pensando em como os sistemas funcionavam, criando automações em AutoIt, publicando pequenos sites desde 2008. meu mundo social era quase todo digital, e a maior parte dos meus amigos era de fora do Brasil, de jogos online. aprendi inglês escrito no ensino fundamental jogando com taiwaneses, estadunidenses, canadenses, latinoamericanos.

não tinha celular. meu primeiro celular veio com uns dezenove anos. antes disso era computador de casa ou nada. enquanto meus colegas de escola começavam a ter smartphones, eu continuava no PC, e isso nem me incomodava tanto porque o que importava estava lá mesmo.

quando terminei o ensino médio, passei numa federal pra redes de computadores. deveria ter ido. mas decidi cursar relações internacionais porque meus amigos eram todos do exterior, e aquilo fazia sentido pra minha cabeça na época. não foi uma boa decisão. mas fiz essa escolha com dezoito anos, e desde então cresci e mudei muito. ninguém é a mesma pessoa que era aos dezoito.

o que ninguém via

na adolescência, eu escondia muita coisa. há uns dez anos, no ensino médio, eu só queria morrer. dormia dezesseis horas por dia quando dava. acordava sem querer ter acordado. ia pra escola sem motivação nenhuma de estudar, porque mal sabia se ia viver até me formar. o quanto eu pesquisei sobre suicídio quando era menor é sacanagem. nunca soube como dizer isso pra ninguém.

lembro de um professor que me chamou de preguiça na frente de todo mundo porque eu não estava prestando atenção. claro que não estava. peguei minhas coisas e saí enquanto ele continuava gritando. por essa e outras é que odeio aulas presenciais até hoje, mas na época não conseguia explicar o motivo real.

o motivo real é que sou autista.

desde criança, a aula presencial era um ambiente que não conseguia processar direito. a estratégia era fingir que estava entendendo e em casa tentar aprender do zero com a apostila. aquele professor não foi o único, vários fizeram a mesma coisa ao longo dos anos, xingar em público de preguiça e desinteresse quem ficava em silêncio, sem atrapalhar ninguém, e simplesmente não conseguia filtrar os estímulos de uma sala cheia. (´;ω;`)

consegui me formar mesmo assim. mas sempre estudei por fora. a aula presencial, pra mim, nunca foi onde o aprendizado acontecia de verdade. era o lugar onde eu sobrevivia até poder estudar de verdade.

entendo as críticas ao EAD, tem fundamento em muita delas. mas o ataque generalizado à modalidade afunda quem realmente precisa dela pra conseguir aprender. quem nunca precisou de um formato diferente raramente consegue imaginar que o problema pode não ser o aluno. (¬_¬)

quando terminei o ensino médio, não recebi parabéns do meu pai nem da minha mãe. não era rancor, era só... eu queria ter recebido. tinha feito algo que, pra mim, era muito mais difícil do que parecia por fora. não por causa das provas. por causa de ainda estar aqui pra chegar até aquele dia. o(TヘTo)

não conto isso pra gerar pena. conto porque é contexto. a mesma pessoa que estava nessa situação foi pra faculdade, fez duas graduações simultâneas, dois MBAs, certificações, primeiro lugar em concursos. e ninguém sabia o que estava acontecendo por dentro em nenhum desses momentos. talvez esse seja o padrão da minha vida inteira. o que está acontecendo de verdade, ninguém vê.

na vanguarda de tudo, sem reconhecimento nenhum

tem uma coisa que carrego com um nível de ressentimento que ainda não consegui resolver completamente, e vou ser transparente sobre isso.

eu cheguei antes em muita coisa. não por estratégia. por curiosidade genuína, por hiperfoco, por estar sempre no lugar certo na hora que ninguém ainda tinha percebido que era o lugar certo. e nunca ganhei nada com isso. nem dinheiro, nem reconhecimento, nem uma única vez alguém que chegasse depois e dissesse "nossa, você estava lá antes de todo mundo". (´-ω-`)

em 2008, com doze anos, eu usava VPN, o Hotspot Shield, pra burlar bloqueio de IP de um jogo chamado Splash Fighters que não estava disponível pra brasileiros. por causa disso, eu via anúncios americanos. e um desses anúncios era da Netflix, que na época estava estreando no streaming de filmes pela internet. eu vi a Netflix antes de todo mundo no Brasil saber o que era a Netflix.

em 2012, meu primeiro contato com Bitcoin foi através de jogos online. o Holy Beast Online fechou os servidores ocidentais, e quem queria continuar jogando nos servidores de Taiwan e Hong Kong precisava transacionar dinheiro internacionalmente pra comprar conta de jogadores asiáticos. o método era Bitcoin, sem banco, sem cartão, sem fronteira. eu estava no Bitcoin em 2012, minerando via pool Eclipsemc em 2013, usando os coins pra comprar jogos no Humble Bundle e domínios no Namecheap porque não tinha conta bancária e não tinha dinheiro, mas os Bitcoins resolviam.

gastei tudo. sempre que minerava o suficiente pra comprar o que queria, comprava. não guardei. não tinha como imaginar o que viria depois. cada satoshi que gastei em domínio hoje valeria uma quantia ridícula. (¬_¬)

em 2014 conheci o Dogecoin e não liguei. em 2016 descobri num fórum gamer uma altcoin que se ganhava jogando League of Legends, o Digibyte (DGB). tinha cerca de 500 mil DGB. negociei antes da valorização. sempre antes da valorização. o padrão da minha vida com cripto eh esse, chegar cedo demais, sair cedo demais, ver de longe a coisa explodir depois.

nos jogos online, eu era o tipo de pessoa que estava em servidores antes de ficarem famosos, que conhecia mecânicas antes de youtubers fazerem vídeos explicando. no Holy Beast Online, no GetAmped, eu era quem ensinava os outros. hoje não existe registro disso em lugar nenhum que o mundo veja.

a mesma história se repetiu com influencers e criadores de conteúdo. assisti muita gente hoje enorme quando eles tinham centenas de visualizações. acompanhei canais antes de qualquer algoritmo recomendar. nunca comentei "estava aqui quando você tinha mil inscritos" porque me parece performático, mas a verdade é que estava. não importou. eles cresceram, ficaram famosos, e eu sou ninguém que os assistia numa fase que ninguém lembra mais.

com VTubers foi igual. a Neuro-sama, a IA da Vedal que se tornou um fenômeno, eu acompanhei desde muito cedo. não era a única pessoa ali, tinha uma comunidade pequena que estava lá antes. mas é o tipo de coisa que quando você fala pra alguém hoje, a pessoa pensa que você tá exagerando. e mesmo que acreditasse, não muda nada na sua situação concreta. chegar antes em algo não dá crédito, não paga conta. (T_T)

em fevereiro de 2023, três meses depois do lançamento público do ChatGPT, eu já tinha clonado minha própria voz com IA. usei RVC v2 no Google Colab, rodei 250 épocas de treino, e criei uma IA que respondia perguntas sobre investimentos em lives ao vivo usando a minha voz sintética. me inspirei em VTubers como a própria Neuro-sama. o resultado funcionou. o projeto ficou tecnicamente interessante. ninguém viu. não virei referência em nada. o LinkedIn post que publiquei sobre isso teve engajamento de zero vírgula nada.

CONTEXTO

em fevereiro de 2023, clonagem de voz acessível com RVC era coisa de uma minoria muito pequena de pessoas no mundo. hoje qualquer pessoa com celular consegue fazer isso em segundos com dezenas de apps. mas em 2023 eram horas de setup, Colab, CUDA, e entender o modelo. eu estava lá.

o padrão se repete ad nauseam. Bitcoin em 2012: antes. Netflix em 2008: antes. clonagem de voz com IA em 2023: antes. VTubers: antes. influencers: antes. sempre antes. e sempre sem nada a mostrar pra isso além da minha própria memória de que estava lá.

não estou dizendo que isso me daria direito a dinheiro ou fama automaticamente. eu sei que só estar no lugar não é suficiente. mas o que me incomoda é que a narrativa que o mundo gosta de vender, a de que os primeiros a adotar algo novo saem na frente, de que o early adopter tem vantagem, simplesmente não se aplicou a mim em nenhuma das dezenas de vezes que fui early adopter. a vantagem foi sempre pra outros. e eu continuei no mesmo lugar. (´-_-`)

guardo esse ressentimento com uma clareza que incomoda. não é amargura cega, é a percepção objetiva de que estive em muitos lugares certos na hora certa, e a história continuou sem me incluir.

a van de Joinville a Itajaí

eu morava em Joinville e estudava em Itajaí. pra quem não é de Santa Catarina, as duas são cidades diferentes, e a distância não é trivial. mas o detalhe que mais pesa quando eu lembro é a rotina da van.

a van passava nas residências dos alunos. a van me pegava cedo e me deixava por último. o trajeto todo pra mim era o mais longo possível nos dois sentidos. saía de casa de tarde e chegava de volta de madrugada. (o´_`o)

tomava remédio pra enjoo porque sinto enjoo em viagens mesmo. e enquanto todo mundo dormia, eu ficava estudando pelo celular, aprendendo língua japonesa por aplicativo, assistindo vídeos de canais sobre importação e comércio exterior. naquela época, em 2016, eu comprava bastante pelo AliExpress, e entendia bem como funcionava a cadeia. nos fins de semana fazia curso de mandarim presencial. durante um tempo também fazia curso de montagem de PC, também presencial. tudo junto, ao mesmo tempo.

em algum momento, o corpo cobrou a conta. já cheguei a desmaiar de cansaço em público. não de uma vez de drama, mas de exaustão acumulada, de me forçar além do que o corpo aguenta por um período longo. fui ficando doente. não foi uma escolha dramática de sacrifício, foi simplesmente o resultado de estudar pesado demais sem estrutura de suporte suficiente.

me formei na pandemia

me formei em Relações Internacionais pela UNIVALI em 2020. ao mesmo tempo, estava concluindo a graduação em Comércio Exterior por outra universidade. duas graduações simultâneas. meu TCC de RI foi sobre macroeconomia aplicada ao comércio internacional.

2020. pandemia de COVID. o setor de comércio exterior foi um dos mais afetados. portos paralisados, cadeias de suprimento quebradas, empresas demitindo os profissionais de área. me formei no pior momento possível para entrar exatamente no setor para o qual eu havia estudado anos. (╯°□°)╯

não consegui nenhuma vaga na área. nenhuma. o mercado estava congelado.

o mercado financeiro

sem saída no comércio exterior, decidi focar no mercado financeiro. afinal, eu já entendia macroeconomia em alguma profundidade. fui estudar de verdade.

tirei a certificação CEA da ANBIMA, que é de especialista em investimentos. passei na ANCORD. fiz um MBA em Macroeconomia e Portfolio Management com Paulo Guedes, 391 horas, notas altas em quase tudo, inclusive em Derivativos que é a matéria que todo mundo teme. numa competição simulada de investimentos entre cerca de 850 participantes, fiquei perto das primeiras posições com uma carteira de 27 ativos que montei no primeiro dia e não toquei mais, com rentabilidade de +82,97% no período. fiz um segundo MBA, em Economia Internacional. dois MBAs.

e nunca consegui vaga em banco. nem em cooperativa de crédito. nem em nada do setor financeiro formal. (¬_¬)

a única experiência que tive na área foi fazendo consultoria de investimentos PJ na Portfel. e recomendo a empresa até hoje, especialmente por causa do Felipe Spritzer, que tem uma visão ética de mercado financeiro rara num ambiente corrompido por conflito de interesses. foi uma experiência real, mas enfrentei dificuldades por conta da parte comercial do trabalho

a Compass UOL

logo depois veio uma oportunidade na Compass UOL, na área de programação. entrei no programa de bolsas, fui muito bem. tirei a certificação AWS CCP. tirei nota máxima em todos os desafios do programa. a efetivação foi num projeto complexo e importante, com o Banco Itaú.

mas não consegui me adaptar ao dia a dia de imprevisibilidades de rotina da empresa. é doloroso admitir isso. fui bem em tudo que era mensurável, prova, desafio, certificação, projeto. mas o formato do trabalho em si, as mudanças constantes de demanda, a falta de previsibilidade da rotina diária, me desestruturou. saí depois de um mês.

eu sei que isso parece contraditório com tudo que eu descrevi antes. uma pessoa que estudou tanto, que suportou tanta coisa, que aguentou anos de van de madrugada, não aguenta um mês de empresa? acredito que parte dessa resposta está em como meu cérebro funciona, no que hoje eu entendo melhor sobre neurodivergência e sobre os ambientes em que consigo e não consigo performar. mas é uma conversa mais longa e eu ainda não terminei de processar tudo.

os concursos

decidi então focar em concursos públicos, que têm uma vantagem clara, a avaliação é objetiva, a régua é a mesma pra todo mundo, e o resultado é público.

em menos de seis meses, passei em vários concursos. primeiro lugar em dois deles. um deles pra Analista de Sistemas, com quase duzentos inscritos. outro pra Instrutor de Informática, onde fiz a prova sem ter dormido quase nada, em hotel com calor, pesando mentalmente o diagnóstico de câncer da minha mãe que tinha sido pouco antes, e ainda assim fiquei apenas uma questão na frente do segundo colocado.

até hoje nenhum me chamou. zero convocações. nomearam gente de quase todos os outros cargos do concurso de Analista, e o meu continua parado. o silêncio da administração pública tem um peso todo especial. ┐( ̄ヮ ̄)┌

então essa é a situação real, em primeiro lugar nos concursos, sem receber convocação, sem conseguir emprego no privado, sem dinheiro, com saúde comprometida.

o que não aparece em nenhuma régua

tem uma variável nessa equação que não aparece em nenhum gráfico de empregabilidade. e é provavelmente a mais pesada de todas.

tenho uma condição de saúde que impõe um nível de sofrimento que a maioria das pessoas não vai conseguir imaginar. não é o autismo. não estou usando hipérbole. a dor que vem com ela não é episódica, não tem hora marcada pra começar e acabar. é passiva, constante, em todos os horários, em graus que variam de forma imprevisível. pode estar num nível e em quinze minutos estar completamente diferente. não cresce de forma linear, é exponencial. quando sobe, não consigo fazer nada. fico na cama esperando passivamente algo que não sei quando vai passar. (ノω・、)

a melhor analogia que consigo fazer é essa. imagina estar eternamente sufocando debaixo da água. sem conseguir respirar direito. mas também sem conseguir sair. vc aprende a funcionar parcialmente dentro desse estado porque não tem outra opção. mas "funcionar parcialmente" não aparece em currículo, não conta pra banca de concurso, não é visível pra ninguém de fora.

tenho quase certeza que uma pessoa em isolamento total, imobilizada, sem poder fazer nada, sofre objetivamente menos do que eu nesse estado. isso não é drama. é o que sinto, e sinto com clareza.

estou em acompanhamento médico. aguardo um procedimento. o processo avança no tempo que avança, dependendo de uma cadeia de fatores que não estão sob meu controle. enquanto isso, a urgência continua. tentei comunicar o nível disso algumas vezes. o resultado invariavelmente é complicação, não compreensão. aprendi a não falar sobre isso.

o plano de saúde dificulta o que pode. os familiares também. e tudo que tento fazer pra mover o processo resulta em novo obstáculo, nova espera, novo fator fora do meu controle. ヽ(´Д`;)ノ

fico me perguntando se faz sentido continuar me esforçando. não é retórica. é uma pergunta real que não consigo responder com clareza. fiz o que a narrativa manda fazer. estudei, construí, insisti. cadê a recompensa? não precisa ser grande. pode ser qualquer coisa concreta. mas não aparece.

o que fica é a sensação de que empatia é rara. as pessoas priorizam o que é bom pra elas. tá errado? provavelmente não. é o jeito que funciona. no fim, certo e errado são subjetivos. cada um constrói a própria lógica. eu só ainda não encontrei uma que explique por que é tão difícil. (;一_一)

antes conseguia dormir pra aliviar um pouco. era temporário, mas era alívio. agora até dormindo sofro. esse escape fechou.

então quando eu digo que a situação é difícil, não é só sobre o mercado, os concursos, o dinheiro, que já seria muito. é tudo isso acontecendo em paralelo com uma dor constante que ninguém ao redor consegue calibrar, e que ninguém vai entender nem 1% de como é sem ter passado por ela. estudar, construir projetos, fazer concurso tem sido também uma forma de ter estrutura num cenário onde quase tudo depende da vontade de terceiros. médicos, juízes, empregadores. eu faço a parte que depende de mim. o resto não está nas minhas mãos. ┐(´д`)┌

a conta que não fecha

eu fico tentando fazer essa conta e ela não fecha.

se as bancas de concurso me colocam em primeiro lugar, com critérios objetivos, entre candidatos que estudaram meses pra aquele edital específico, então algum nível de competência existe. não é ilusão minha. tem gabarito e resultado publicado.

se o mercado privado não me contrata pra nenhuma posição, nem de entrada, então ou:

  • o mercado avalia coisas que os concursos não medem e que eu não tenho, tipo experiência formal em carteira, que é um pré-requisito que se auto-perpetua, você precisa de experiência pra ter experiência;
  • ou meu perfil é considerado arriscado de alguma forma que ninguém me diz explicitamente, seja pela diversidade de áreas, seja pela pouca experiência formal, seja pelo histórico irregular;
  • ou tem algo no processo seletivo do mercado privado que eu não consigo passar bem e que não é sobre conhecimento técnico.

provavelmente as três ao mesmo tempo. mas nenhuma dessas respostas muda a equação prática, estou aqui, precisando de dinheiro, com saúde que não está bem, e a lacuna entre o que as provas objetivas dizem sobre mim e o que o mercado decide sobre mim é enorme. (;ω;)

o que nunca parei de fazer

mesmo sem emprego, sem dinheiro, sem saúde boa, nunca parei de estudar. esse blog existe porque eu preciso escrever sobre o que aprendo. o Mayinab, meu app de estudos, existe porque eu precisava de uma ferramenta melhor pra mim e resolvi construir. meus algoritmos de web scraping existem porque eu queria entender mercado de tecnologia com dados. sempre teve alguma coisa sendo construída, mesmo quando o ambiente externo estava caindo.

isso não é humildade falsa nem é autocompaixão. é simplesmente verdade. as pessoas que pararam de se desenvolver por falta de resultado já pararam faz tempo. eu não parei. mas também preciso admitir, estudar muito sem conseguir transformar isso em trabalho e em dinheiro tem um custo alto, não só financeiro. tem um custo emocional que vai acumulando. (´•_•`)

hoje, olhando pra trás, sinto que fiz um pouco de tudo mas não cheguei a dominar nada de verdade. deveria ter focado num único ponto. tem um conceito japonês pra isso, ittenshuuchuu, concentração total num único ponto. é o que me faltou. e o que me incomoda é que hoje ainda cometo o mesmo erro, quero estudar de tudo ao mesmo tempo, o que é um erro. mas repetir os próprios erros é um defeito meu.

por que estou escrevendo isso aqui

esse blog não tem audiência. as métricas mostram isso claramente. ninguém acessa. fui alguém que fez coisas na adolescência que eram consideradas impressionantes pra época, e hoje não existe registro de mim em lugar nenhum. esses feitos passados não existem mais no vocabulário de ninguém além do meu.

mas é exatamente por isso que consigo ser transparente aqui. não tem audiência pra performar. não tem recrutador lendo esse artigo pra impressionar. não tem algoritmo pra otimizar. é só texto numa página que quase ngm vai ver.

e de alguma forma, isso libera uma honestidade diferente. a situação é difícil. a conta não fecha. não sei quando os concursos vão me chamar, se vão, e não sei o que acontece com minha saúde enquanto isso. não tenho um final feliz pra apresentar nem uma lição motivacional pra empacotar.

o que eu tenho é o registro honesto de que me esforcei muito, em condições muitas vezes ruins, e que os resultados objetivos quando existiram foram bons. e que apesar disso, o mundo ao redor ainda não criou espaço pra isso virar algo sustentável.

não sei se o problema é o mercado, se sou eu, se é o Brasil, ou se é a combinação das três coisas. provavelmente a combinação das três. mas me recuso a fingir que está tudo bem quando não está, ou que a solução é só "se esforçar mais".